Como podemos entregar um mundo mágico sem magia?
A imaginação é a base para criação de um mundo fantástico e isso só é possível por meio de imagens. O ato de ilustrar está diretamente ligado à criatividade humana. Por essa razão, ser autor e ilustrador de livros, especialmente infantis, é produzir encantamento nas crianças e adultos. É permitir que a magia entre em nossos lares e mentes. Eles são, acima de tudo, escritores que, em lugar de palavras, usam imagens para contar histórias.
Por isso, hoje vamos falar a respeito da concepção do projeto gráfico do livro infantil, apresentando técnicas, tipos e cores que vão ajudar a observar e entender as ilustrações, melhorando nossa percepção sobre essas incríveis obras literárias.

Ginástica Animalástica - João Fazenda, 2010. Fonte: Pinterest
Como toda imagem, a ilustração pode representar, descrever, narrar, simbolizar, expressar, chamar atenção para sua configuração visual, para elementos do texto ou para a linguagem visual, além de procurar interferir no comportamento do observador. A intensidade dada pela imagem pode levar a criança a um novo contato com o texto. A imagem ajuda a compreender a narrativa, como também dá abertura à imaginação dos pequenos leitores para criarem as suas próprias histórias.
Assim, existem algumas características que identificam os livros infantis independendo do seu tipo de conteúdo:
→ Costumam ter histórias simples com fundos e mensagens profundas que tendem ao ensino de
diversas formas.
→ Independente do espaço ocupado nas páginas, as imagens são coprotagonistas ao lado do
texto.
→ A relação entre texto e imagem pode ser complementar ou contraditória, dependendo do
objetivo da mensagem.
→ Os temas e estilos de ilustração são amplos e livres, mas a estrutura narrativa costuma ser
simples.
→ Da mesma forma, o uso da técnica é livre e será aprofundada mais tarde.
O livro, por ser um objeto tridimensional, pode ser criado de infinitas maneiras. Por isso, o ilustrador/designer de um livro infantil tem que preencher as necessidades da criança, aplicando soluções que estão além das diferentes possibilidades de técnicas de ilustração, para estimular o impulso criativo e o desfrute dos leitores a partir do objeto criado.
Então, dentro desse contexto, existe um vasto leque de tipos de livros para a infância. Nestas obras, as imagens podem conter uma paleta cromática explosiva, abas móveis, o papel possuir transparências, texturas e brilho, enfim. Aqui, vamos abordar 3 tipos mais comuns: Os picturebooks, livros sem texto e os livros pop-up.
1 – PICTUREBOOK
O picturebook, ou álbum ilustrado, é um tipo de livro direcionado à infância, cuja grande componente é a harmonia da imagem e da tipografia. Um álbum ilustrado contém uma mistura de elementos verbais e visuais; é um novo alfabeto para o leitor, um alfabeto visual. Nele, a obra se comunica através da imagem e da tipografia manual. A tipografia torna-se parte da imagem. A nível cromático é um livro muito chamativo.
O papão no desvão – Ana Saldanha, 2010. Fonte: Casa da Leitura
2 – LIVRO SEM TEXTO
Os livros sem texto são a forma de interação do ilustrador com as crianças. Não existe texto ao longo do livro, apenas a imagem e a materialidade da obra é que narram assim uma história através de imagens, cores, formas, matérias.
Zoom – Istvan Banyai, 2002. Fonte: Slideshare
3 – LIVROS POP-UP
Os livros pop-up também conhecidos por Lift-The Flap, são livros de peças movíveis. Estes livros interagem com o público em três dimensões. Neste âmbito, também estão inclusos livros com janelas (recortes nas folhas) e livros com jogos. A criança como utilizador pode tocar na estrutura em papel e “participar” das ilustrações.
O Pequeno Príncipe: o grande livro pop-up – Antoine de Saint-Exupéry, 2009. Fonte: Adrya
TÉCNICA
Para criação das ilustrações do público infantil, o uso da técnica é livre. Isso irá depender de cada livro e de cada autor. Será a história que dirá a técnica que deverá ser utilizada, pois cada livro possui um “clima literário”, ou seja, uns podem pedir o preto e branco enquanto outros já clamam pela cor.
Para a criação das ilustrações do público infantil, podemos apresentar aqui, alguns dos diversos materiais e técnicas que os ilustradores têm ao seu dispor:
Lápis de cor
O lápis de cor é a técnica mais rápida e fácil de ser utilizada, porém geralmente, é mais trabalhosa e demorada.
Este material possibilita o uso de desenhos suaves e traços intensos, conforme estiver afinado a ponta. Uma característica do lápis de cor é possibilitar uma mistura óptica; as sobreposições de cores podem ser usadas de forma a se atingir cores e sombreados distintos.
Zoo Musical – Ana Biscaia, 2010. Fonte: Casa da Leitura
Acrílico
A tinta acrílica é bastante utilizada na ilustração infantil, não só pela diversidade de cores, como por permitir ser uma técnica muito dinâmica. O seu traço é mais evidente e a secagem é rápida. É possível usá-la em camadas espessas ou finas, ou até mesmo diluir na água, permitindo a criação de diversos mundos visuais através da mesma técnica.
Ilustração do autor João Vaz de Carvalho. Fonte: Trema
Aquarela
A aquarela é uma técnica de pintura que permite utilizar as suas transparências como aguadas ou sobreposição. A questão da luminosidade na aquarela está associada à transparência de cada cor: quanto maior a transparência, maior a luminosidade e vice-versa.
A casa dos contrários (2020) – Ana Teresa Camargo. Fonte: Behance
Colagem
É uma técnica de produção de arte que parte de um conjunto de diferentes formas e materiais, tais como papéis texturizados, tecidos, revistas, fitas e outros. Por vezes adicionados a outras técnicas, embelezam e dinamizam as páginas.
Da cabeça até os pés – Eric Carle,2013. Fonte: Issuu
CORES
O uso das cores na ilustração infantil tem um papel narrativo, no sentido de que o ilustrador trabalha a cor em função da palavra. Ela é um agente de grande importância, pois sua manipulação consegue dar um novo sentido às ilustrações. A cor, por si só, já conta uma história, por isso, é crucial que ela esteja em sintonia com a imagem.
Por exemplo, para ilustrarmos uma cena dramática, as cores devem ser mais fechadas. Já quando o texto se torna mais resplandecente, utilizam-se cores mais luminosas; para cenas mais tranquilas, cores frias. Portanto, a teoria de que um livro infantil deve ser demasiadamente colorido deve ser desmistificada.

A paleta de cores é escolhida pelo ilustrador de acordo com a necessidade do texto, da história, das questões mercadológicas, ou, simplesmente, da vontade do artista. Apesar de todas as variáveis que podem influenciar o significado das cores, o uso destas consegue transmitir sentimentos e ideias devido ao padrão utilizado por diversas empresas de marketing. Por exemplo, se eu lhe perguntar uma cor para expressar a raiva, certamente você pensará no vermelho. Isso se torna muito comum em livros infantis, o que possibilita a motivação e o desenvolvimento da cognição e da criatividade em futuros desenhos da criança.
O monstro das cores – Anna Llenas, 2021. Fonte: Ludopedia
Porém, isso varia. Antes da concepção do design de um livro é necessário ter em conta o público-alvo. Então, considerando a faixa etária a que a obra se destina, podemos saber se a obra irá conter cores mais chamativas, mancha textual, se a tipografia é apropriada a este público, entre outros aspectos. As ilustrações têm que estar em sintonia com o tipo de letra escolhido como também devem refletir ou acrescentar itens à narrativa, para que se complementem, tornando cada página uma nova experiência para o leitor.
Por isso, ao tratar-se de um recurso visual, a ilustração possibilita que o livro infantil seja trabalhado com a criança desde muito pequena, mesmo não tendo domínio do código verbal. Pois, muitas vezes, o texto escrito poderá ser compreendido a partir destes recursos gráficos. Desta forma, o livro literário não é um prazer próprio àqueles que sabem ler e escrever, para isso, as ilustrações desempenham um papel fundamental e possibilitam a leitura através das imagens visuais.
Assim, ao adaptar a aprendizagem e a leitura de determinados livros à faixa etária a que se destina, obtemos 3 possíveis grupos:
De 0 a 3 anos
As crianças aprendem a ler somente as imagens, fazendo com que a leitura destes seja feita pelos pais. Assim, seu objetivo não é apenas transmitir conhecimento. Adota também características lúdicas, para que as crianças explorem, aprendam e se divirtam com os livros, sendo comum a presença de sons, luzes e cores mais vibrantes e chamativas.
Deu zebra no ABC – Fernando Vilela, 2017. Fonte: Na corda bamba
De 3 a 6 anos
As crianças começam a desenvolver sua capacidade de leitura. Os livros criados para este público têm desenhos que dominam as páginas, dando à ilustração grande relevância. A narração da história vai consistir em transmitir eventos na forma de palavras e imagens com base no embelezamento.
Visconde todo prosa – Sônia Travassos, 2010. Fonte: Adrya
De 7 a 10 anos
Por último, as crianças deste grupo já são leitores independentes. Por conta disso, as histórias são mais longas, o vocabulário e a trama se tornam mais complexos e, consequentemente, o texto começa a se destacar nas páginas e as ilustrações deixam de ser protagonistas em relação ao espaço.
Tom Sawyer – Ruth Rocha, 2011. Fonte: Adrya
“Dentro das ilustrações existem verdadeiros emaranhados de sentidos, é preciso apenas um olhar mais atento para perceber o mundo mágico que se passa através delas.”
Ana Paula Abreu
Se você, assim como eu, se encantou com as belezas e riquezas da literatura infantil, acesse a coluna da Victoria Freire “Era uma vez” que mostra um pouco mais sobre esse mundo encantado todas as quartas!

Referências:
O livro como objeto multifacetado: A diversidade de técnicas na ilustração infantil – Ana Bemposta de Moraes Rocha, 2015.
As ilustrações do livro infantil como processo criativo participado – Ana Rita Almeida Malveiro, 2013.
O que é ilustração infantil? - Domestika
Imagem da capa de Csaba Khilenberg do site Dribbble
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